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 Walking in shadows

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Sam

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MensagemAssunto: Walking in shadows   Seg Jul 16, 2012 1:45 pm

TÍTULO: Walking in Shadows.
CATEGORIA: Original.
GÊNERO(S): Aventura.
CLASSIFICAÇÃO: +16
AVISO(S): Violência.
SINOPSE:
O centro do reino... pode ter certeza de que é o pior lugar em que você pode ter o azar de nascer. Se olhar para um lado vai ver as grandiosas casas da nobreza, se olhar para o outro vai dar de cara com a situação miserável do resto da cidade... um contraste lindo, não acha?
Bom, de certa forma eu não tenho do que reclamar, é o melhor lugar do mundo para mim! Sempre se encontra alguém bêbado saindo da taverna às altas horas da madrugada, então é bem fácil ganhar a vida assaltando algum conde caindo de bêbado...
O problema é que eu não imaginava que a minha situação ia mudar... Mas afinal, para quem está no fundo do poço, o que custa ouvir uma nova proposta?
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Sam

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MensagemAssunto: Oferta inesperada   Seg Jul 16, 2012 2:13 pm

OFERTA INESPERADA


Era mais um dia como qualquer outro. O calor do sol, as ruas abafadas, crianças retardadas correndo e gritando... Um típico dia na cidade.
Não tem muito que falar sobre mim, mais um pobre coitado que teve o azar de nascer nesse inferno... O centro do reino é sempre assim: vendedores gritando para atrair clientes... nobres inúteis se exibindo para a ralé... crianças inúteis correndo de um lado para o outro como as retardadas que são... animais inúteis trancando o caminho e sujando as ruas... e vagabundos inúteis como eu tentando encontrar algo que valha a pena ser roubado.
Sim, eu admito que não presto, ao menos eu admito. Bem diferente dos inúteis da corte que acham que são importantes para alguém e pensam que o mundo gira ao redor deles.
E lá estava eu, em mais uma noite, esperando em um canto escuro do Rover Galleon, em meio a fumaça do fumo e ao cheiro forte de bebida. Não, eu não estava bebendo, como se eu tivesse com o que comprar a bebida... Eu só estava esperando uma presa em potencial resolver sair.
É, foi o jeito que eu achei para me virar nesse inferno. É uma idéia simples. Espere até alguém que pareça ter dinheiro sair da taverna. Quando sair, siga-o. Então, quando passarem pelo primeiro beco escuro puxe-o para lá, dê-lhe uma boa pancada na cabeça e leve tudo que aparentar ser valioso ou puder ser vendido. Simples, não?
Mas naquela noite eu tive azar... Como se eu tivesse tido sorte em algum dia dessa vida miserável, mas enfim... Se bem que, um tempo depois eu consegui ver que foi a maior golpe de sorte que já me atingiu.
Um homem que bebia no balcão, conversando com uma prostituta e bebendo com calma, levantou e seguiu em direção a porta. O saco de moedas que estava preso ao seu cinto tilintou de uma forma tão convidativa quando passou por mim que eu não pude resistir... Segui-o sem que percebesse, e assim que passamos pelo primeiro beco escuro eu ataquei.
Mas eu não imaginava que o maldito bastardo fosse reagir.
-Então é você que vem assaltando os clientes? –Ele perguntou baixo, segurando meu braço atrás de minhas costas, torcendo-o, parecia estar rindo um pouco da minha cara.
-Me larga. –Eu tentava me debater. –Vai fazer o quê? Me entregar à polícia? Grande droga, só vai ser um ladrão a menos nesse lugar.
Ele me soltou. Não entendi o porquê.
-Tem razão, só mais um corpo pendurado na forca. –Ele falou rindo. –Mas por que eu não deveria fazer isso? Ah, está procurando isso? –Falou brincando com minha faca, ao ver que eu a procurava.
-O que você quer? Se não vai me entregar à policia então eu não consigo imaginar algo. O que quer? Se for assalto já aviso que não tenho nada.
Ele riu outra vez. Ah, quanta vontade de quebrar cada dente daquele sorriso...
-Ah, meu amigo... Você acha que está na pior situação possível? Haha... Sinto informar, mas você ainda não viu nada! Pode ir se preparando, garanto que daqui para frente só piora! É assim, não estranhe... As ruas dessa cidadezinha medíocre estão sempre infestadas de imbecis. E, me deixe dar a novidade, você é um deles.
-Só está falando o que eu já sei. –Respondi com raiva. –O que quer?!
-Ora, não faça essa cara, não é o fim do mundo! Vamos analisar a bela vida que você tem pela frente: passar o dia inteiro no ócio por aí, durante a noite assaltar algum nobre bêbado que está saindo da taverna, quando estiver com sono vai ter que procurar algum buraco qualquer nessa cidade imunda para se esconder durante a noite... Tudo isso torcendo para não parar na forca qualquer dia desses... Ah, mas que beleza, não acha?!
-Ah, com toda certeza! A vida que eu pedi a Deus! –Falei com todo o sarcasmo possível.
-Não? Você acha que não?! Mas que ótimo... então me deixe fazer-lhe uma proposta, meu caro amigo...
-Não me lembro de ter dito que era seu amigo.
-Certo, então o que acha de ser meu colega? Pode ter certeza de que vai ser melhor do que continuar do jeito que está. –Respondeu me olhando de cima a baixo com uma expressão de desprezo.
Sim, ele parecia ter uma boa oferta. Ora, para quem já está no fundo do poço o que custa ouvir uma nova proposta?
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MensagemAssunto: Gear   Sex Jul 27, 2012 2:20 pm

GEAR


-Diga sua proposta. -Falei, cruzando os braços.
-Você parece ter talento. Acha que não vi você analisando os fregueses da taverna? -Apoiou as costas numa das paredes e ficou escorado lá. -Além disso é paciente, esperou até que um bom alvo saísse e foi atrás dele. E usa a cabeça, o que anda sendo raro entre ladrões, esperou que passássemos pelo melhor lugar para atacar.
-E isso tudo quer dizer quê...? -Perguntei, tentando apressar a conversa.
-Você pode ser útil às pessoas para quem trabalho. -Falou apontando para mim. -Precisa de treino, muito treino... E precisa fazer alguns estudos, aprender algumas coisas... mas isso tudo eu posso ensinar a você. -Falou sorrindo.
-Tem como parar de enrolar e dizer logo qual é o serviço?
-Ora, sou um ladrão como você. -Falou se aproximando.
-Aham, certo... -Falei arqueando a sobrancelha e olhando-o de cima a baixo. -Com toda essa pose é difícil de acreditar...
-A diferença é que estou em um outro nível... um patamar bem mais alto, sabe... -Respondeu com um sorriso de desprezo. Cara irritante...
-Ok, vou acreditar que você também é. -Falei. -Qual seria a diferença entre ir com você ou seguir sozinho?
-Que parte do "estou em um nível superior" você não entendeu? -Ele me olhou desconcertado. -Não posso dar muitos detalhes sem ter certeza de que virá comigo. Mas o essencial eu já falei: pode ter certeza de que vai ser muito melhor do que continuar como está.
Eu não pensei antes de dar a resposta, afinal ele estava certo. Pior do que eu estava com certeza eu não ia ficar, então aceitei a proposta.
-Ok, vou com você.
Ele riu como se, desde o início, soubesse qual seria minha decisão. Não que fosse algo surpreendente, eu teria que ser bem idiota para não aceitar a oferta.
-Bom, vamos, o caminho é longo. -Falou saindo do beco.
Quando saí levei uma pancada forte na cabeça e desmaiei.

Cordas firmes prendiam meus pulsos e tornozelos à cadeira. Isso que dá confiar na primeira pessoa que aparece pela frente com uma boa proposta...
Estava escuro e eu estava trancado em uma sala úmida com paredes de pedra. A única luz vinha de uma vela sobre a mesa. Sem janelas, e a porta do lugar era de ferro e parecia muito bem trancada. Mas que maravilha... Tudo indicava que eu tinha sido preso!
Mais um corpo pendurado na forca...
MAS NEM FERRANDO! Eu não fiquei dezenove anos sobrevivendo naquelas malditas ruas miseráveis do reino só para morrer agora!
Não foi fácil soltar as mãos, mas pelo menos consegui soltar a esquerda. Isso acabou com meu pulso, confesso... Mesmo com a pouca luz dava para ver as marcas roxas que ficaram nele, além de provavelmente eu ter deslocado ele. Bom, mas o que isso importa? Afinal, agora podia soltar as outras cordas.
Ótimo... As outras cordas estavam muito bem presas, ao contrário da que prendia o pulso esquerdo. Estiquei-me até conseguir pegar a vela sobre a mesa. Queimei a corda que prendia meu pulso direito, além de queimar as que prendiam meus tornozelos. Sim, queimei a pele também, mas dane-se.
Não estava mais preso na cadeira, que ótimo.
Mas o que eu ia fazer com a droga da porta de ferro?
As dobradiças ficavam para dentro, eu poderia tentar desmontar elas se eu tivesse as ferramentas necessárias, mas eu não as tinha. Sentei na cadeira para pensar. Para que eu fiz todo o esforço de me soltar se eu não ia conseguir sair da droga da sala? É, a burrice humana é infinita...
A porta se abriu.
-Mas o quê...?
Era aquele cara.
-Bela maneira de tratar um convidado... O que é isso, uma prisão? -Perguntei. Ele estava acompanhado.
-Não, sala de interrogatórios. -Respondeu olhando as cordas jogadas no chão. -É, você não é tão ruim...
Ele entrou na sala, estava acompanhado por outro homem. O acompanhante usava um capuz, então não consegui ver bem seu rosto. Ambos tinham espadas pendendo dos cintos, então a melhor alternativa foi ficar quieto.
-Ok... Vamos ao assunto... -Ele disse, enquanto a figura encapuzava fechava a porta. -Hey, você não me disse seu nome, não é? Bom, eu sou Zay.
-Sou Lewis.
-Uhn, certo... -Zay falou, tirando o chapéu e se apoiando na mesa.
Respirei fundo.
-Olha... Eu agradeceria se parasse com os rodeios e fosse direto ao ponto. -Falei olhando-o com raiva, alguma coisa nele me dá nos nervos.
Ele me olhou surpreso.
-Ora, ora... Não sou eu que estou em minoria e desarmado, então por que não se acalma e deixa as coisas acontecerem sem pressa? -Ele disse em tom tranquilo, enquanto ajeitava o cabelo. -Mas já que quer tanto saber... Você está na sede da Gear.
Ainda não entendo como ele pode ser tão calmo...
-E o que seria isso?
Zay começou a andar pela sala, os braços cruzados.
-Uma organização. Ou, se preferir chamar assim, não passamos de um bando de ladrões. Se alguém tem algo importante e não está usando esse 'algo' para o fim apropriado... bom, nos disponibilizamos a pegar esse 'algo' e entregá-lo a quem fará melhor uso dele. -Explicava com calma, como se escolhesse as melhores palavras. Parecia se animar com a explicação, e começou a gesticular enquanto andava. -Nossa função, é garantir que o mundo gire da melhor maneira possível, garantindo que todas as peças necessárias para isso estarão nas mãos de quem sabe usá-las.
Uhm, boa explicação.
-Aham. -Olhei para ele. -E o que uma organização com um fim tão admirável quer comigo? -Perguntei, juntando as peças.
Era óbvio que eu estava sendo recrutado, mas por que e para quê?
-Estamos quase sem membros. -A figura encapuzada se manifestou. -Há alguns meses descobrimos um número absurdo de espiões, estavam cumprindo as missões com perfeição... Mas na hora de entregar o pedido, vendiam a quem estivesse disposto a pagar mais.
-Obviamente tivemos que eliminar todos, muitos morreram nesse conflito interno da Gear. -Zay falou, a voz carregada de pesar. -Sobraram menos de cinco agentes, então nos vimos obrigados a fazer uma busca por pessoas que parecessem aceitáveis.
Ele parou de falar e andou até mim.
-Você é uma delas. Eu já disse, você parece ter talento e, mesmo que não tenha, posso ensinar tudo que precisa saber.
-Não pense que será um trabalho fácil, mas podemos garantir que também não será desagradável. -Outra vez a figura com o homem com capuz se manifestou.
Zay riu.
-Nisso eu concordo, no fundo vale a pena. Pense bem, que outras pessoas pagariam para você fazer esse tipo de serviço? Sem falar dos reconhecimentos que precisam ser feitos antes de entrar em ação... você sabe, visitar os castelos, participar dos banquetes, cortejar as damas... -Zay sorriu.
-Que parte do 'chega de rodeios' vocês não entenderam? -Eu perguntei, interrompendo o discurso sobre 'Os diversos benefícios de entrar para a Gear'. -Acham mesmo que eu recusaria?
-Vamos considerar isso como um 'aceito'. Venha, temos muito o que fazer.
Sim, realmente tivemos que fazer muitas coisas em seguida. Passei por uma espécie de 'iniciação', onde fui apresentado aos outros poucos membros da Gears. Não foi uma cerimônia muito agradável, fui obrigado a fazer alguns juramentos concordando em ser executado se traísse a organização e jurando obedecer as ordens que me fossem dadas.
Nessa mesma cerimônia ganhei uma cicatriz feita com ferro em brasa, uma engrenagem na omoplata direita. Era o simbolo da Gear, obviamente. A partir daquele momento eu também era um dos agentes da organização.
Também fui designado como aprendiz de Zay, ele me ensinaria tudo que ele julgasse necessário me ensinar.


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MensagemAssunto: Treinando   Qui Ago 02, 2012 2:20 pm

TREINANDO

-Estamos em um castelo... Pergunta: um castelo não é uma sede meio suspeita? –Perguntei enquanto acompanhava Zay.
-Talvez, mas é a melhor sede que poderíamos ter. Castelos são edificações com finalidade militar, esse em especial tem todas as torres, pátios e muros planejados para aguentar os ataques mais terríveis.
-Certo, e ninguém suspeita de nada? Esse lugar fica a uma meia hora da cidade...
-E qual é o problema? Temos provas de que o terreno pertence a um dos fundadores da Gear, então ninguém pode dizer nada. Além disso, desde que nos estabelecemos aqui, começamos a proteger as estradas que ficam por perto, isso nos fez ganhar pontos com o Duque... Ele não faz nenhuma pergunta sobre o que fazemos aqui, não conhece nossa finalidade e não tem idéia de que somos uma organização.
Chegamos a um dos pátios. A área era destinada a treinos no uso de armas. O lado direito era reservado ao treino com arco, já à direita aconteciam treinos no combate com espadas. Alguns poucos pinheiros não muito altos faziam um pouco de sombra e uma dupla treinava.
-Esse lugar anda tão vazio que mal reconheço. –Ele disse, em seguida me estendeu uma espada.
-Treino com espadas? –Perguntei enquanto testava alguns movimentos da espada para me familiarizar com o peso.
-Não... –Respondeu, com uma expressão sarcástica, em seguida sacou a própria espada e atacou. –Também vai ter que aprender a manejar o arco e a se defender com o punhal.
-Sei usar um punhal, mas nunca tentei usar um arco. –Disse, tentando investir pela direita.
Zay bloqueou meu ataque e retribuiu os golpes.
-Quase esqueci: também vai ter que aprender a entrar e sair de qualquer lugar sem ser notado. Aprenda a não ser percebido, mas a perceber quando alguém se aproxima. –Disse bloqueando alguns ataques. –Descubra como matar sem a vítima sequer perceber.
Fui obrigado a começar a recuar para desviar. O cúmulo da injustiça: colocar alguém sem a mínima experiência para duelar com alguém que já foi treinado!
-E, por último, mas extremamente importante... –Disse encurralando-me contra um dos pinheiros. –Ande nas sombras, seja as sombras. É o melhor conselho que eu posso dar a você. –A ponta da espada estava apontada para meu pescoço. –As sombras são o melhor esconderijo que você pode ter.
Ele embainhou a espada outra vez e virou-se para sair, passando pelo pinheiro.
-Ah, você precisa treinar mais... Vou pedir para o Henry treinar com você no fim da tarde, é aquele cara que estava comigo, aquele que usa o capuz escondendo um pouco o rosto. É nosso melhor espadachim, então acho que é a pessoa mais apropriada para treinar alguém nessa arte. –A voz dele se tornou zombeteira. –É sério, você é péssimo... Devia se inspirar mais em mim...
-Que insulto, preciso me rebaixar a isso? –Perguntei indignado.
A lâmina da espada de Zay avançou entre os galhos da árvore, parando a centímetros da minha garganta.
-Novo item na lista: aulas de etiqueta, sempre, duas horas antes do almoço, por um ou dois meses, eu acho. –Falou em tom sereno. –Esqueci que não se pode esperar muito de alguém como você. –Falou com desprezo quando pôs a espada na bainha outra vez.
O esforço para não partir para cima dele foi grande, muito grande.
Mas a vontade foi mais forte...
Zay me obrigou a treinar o uso da espada até o fim do dia, como uma espécie de castigo. Além disso, resolveu intensificar meu treino e ficar ‘de mal’ comigo por quase um mês. Quem se importa? nada se compara a alegria que eu tive em tentar matar ele.

Cinco meses e meio. Longos, muito longos cinco meses e meio. A rotina nesse tempo foi corrida, mas admito que com o tempo me acostumei e comecei a gostar disso tudo.
Basicamente meus dias eram baseados em:
Acordar às 4:30, me arrumar, comer algo às 4:45. Depois treino físico até às 10:00, com cinco minutos de descanso a cada meia hora. Das 10:00 ao meio-dia Zay me arrastava para aulas de etiqueta, nas quais ele fazia QUESTÃO de me esculachar ao máximo (maldito narcisista arogante). Ao meio-dia todos da Gears almoçavam no salão principal e descansavam até às 13:00. Em seguida eu tinha treino de arco e logo depois de equitação. Sou um completo fracasso nas duas coisas. Que culpa eu tenho se aquela porcaria de cavalo insiste em tentar me derrubar?! E o arco também não coopera em absolutamente nada! E aquela besta de cabelos negros que ficou responsável de me treinar e recebe o nome de Zay insiste em exaltar a própria habilidade ao invés de me ensinar... E ainda quis reclamar por eu ter acertado o braço dele no quarto dia, quando ele passava perto do arco... Quem mandou não ensinar direito?
Voltando ao assunto, equitação e arco e flecha iam até a metade da tarde. Depois Zay, como o bom inútil que é, me empurrava para o treino com o Henry e ia para a cidade cair na farra. Esses treinos duravam até o anoitecer. Depois os membros da Gears jantavam e tinham o resto do tempo livre. Menos eu. Zay me arrastava para a cidade e me ajudava a aperfeiçoar tudo o que eu já sabia sobre roubos e sobre agir sem ser visto, em poucas semanas eu já invadia as mansões de grandes comerciantes sem que a guarda pessoal deles sequer notasse (não que fosse difícil, aqueles idiotas eram tão inúteis e as trancas das portas tão vagabundas que era até entediante). Entendi o porquê de todos os membros da Gears terem quase todas as roupas na cor preta, que outra cor seria melhor para se esconder nas sombras da noite durante as missões?
Well... Era o último dia de todo aquele treino. O vento frio atravessava o tecido da minha roupa e eu tinha que me esforçar para não me distrair com isso. O som das lâminas se chocando parecia ser tão afiado quanto elas. Henry já tinha acertado meu braço de raspão e um filete de sangue escorria desse corte. As aulas com ele eram as melhores! Afinal ele não tinha nem mesmo um décimo da arrogância do meu outro professor. Se Zay te derruba ou te acerta, fica meia hora se vangloriando e/ou jogando isso na sua cara. Se o Henry te derrubar, ele explica como você poderia ter evitado que isso acontecesse e te ajuda a levantar.
O vento ficou mais forte e empurrou o capuz dele para trás. Aproveitei a distração e ataquei. Quase não acreditei quando vi que tinha conseguido fazer com que ele perdesse a espada. Ele me olhou contendo o riso e eu embainhei a espada que usava nos treinos.
-Então... o mestre foi superado pelo aluno? –Perguntei rindo.
Henry me deu uma rasteira e eu caí. Imediatamente ele sacou o punhal que levava preso ao cinto. Antes que eu pudesse notar, a lâmina do punhal estava na minha garganta e não tinha nada que eu pudesse fazer.
-Acho que não. –Henry respondeu sorrindo, depois me ajudou a levantar. –Não se gabe até o adversário estar morto. –Disse piscando um olho e sorrindo.
-Você tem que se livrar desse capuz, é um perigo para você. –Comentei para mudar de assunto. Que inferno, será que todos na Gears tinham que ser melhores que eu?
-Não enquanto isso existir. –Ele disse indicando a queimadura que cobria a testa e boa parte da cabeça. –Mas se te incomoda tanto assim pode treinar com o Zay...
-Ah, nem ferrando... Treinar com ele é uma tortura! Chega a me dar uma depressão...
-Ele tem o ego um pouco inflado, mas no fundo é uma boa pessoa... É só questão de ter a sorte de encontrá-lo em um bom dia, ou já ter convivido com ele por alguns anos. –Henry recolocou o capuz. –Então... esse foi o último dia, não é? Bom, você evoluiu bastante. –Disse, com a mão pousada no meu ombro. –Mas não tem essa de “o aluno superou o mestre”, entendeu? –Falou rindo.
-Se você diz...
-Claro que não! Você não o superaria nem se tivesse feito isso a vida toda. E o mesmo vale sobre me superar, caso tenha pensado nisso. –Zay falou com aquele típico jeitinho irritante dele.
Parou a poucos passos de onde estávamos.
-Henry, vou pegar meu aluno de volta agora, se importa?

Zay me conduziu pelos corredores do castelo. Fomos até a torre leste e subimos até o topo. A sala não era grande, mas também não era tão pequena. Tinha poucos móveis, apenas uma mesa sobre a qual estava um vidro de tinta e uma pena, uma cadeira e uma estante que chegava ao teto. Bom, certamente não era a incrível biblioteca que todos sempre falavam, pois só tinha um livro naquela estante.
-Esperava mais da tal biblioteca da qual você sempre fala.
-E isso tem cara de ser uma biblioteca? -Perguntou confuso. -Ela fica no segundo andar da ala oeste e, sim, é enorme. Pode ir lá a partir de amanhã, pode encontrar tudo sobre venenos, manutenção de armas e outras coisas úteis por lá. Sabe ler ou precisa que eu te ensine até isso?
-Sei. -Respondi em tom seco.
Mentira. Tive a sorte de ter uma mãe que me ensinou alguma coisa, mas na verdade não me dou muito bem nisso. E por que a mentira? Que tipo de retardado confessaria isso ao Zay? O bastardo jogaria isso na minha cara por umas duas semanas...
-Bom... aqui é onde todos os segredos da Gears foram, são e serão guardados. -Disse dando alguns passos pela sala.
Ele pediu que eu sentasse na cadeira e pegou o livro. A capa era de veludo carmim com a imagem de uma engrenagem pintada em dourado na capa e na lombada.
-Nesse livro... –Falou olhando para o livro de uma forma quase carinhosa. -...Está tudo que a Gear já fez. Cada página conta um de nossos atos, seus motivos e suas consequências, além do nome de quem foi o encarregado.
Zay se aproximou e colocou o livro sobre a mesa.
-Meu nome está em algumas dessas páginas, junto com um outro. –Suspirou e ficou em silencio por uns minutos.
Naquela hora, por mais difícil que fosse acreditar, Zay até pareceu... Não acredito que vou dizer isso, mas ele até pareceu um cara legal.
-Olha, sei que você não gosta muito de mim. –Ele continuou. –Embora eu realmente não entenda como alguém pode não gostar de mim, afinal eu sempre fui uma pessoa incrível, mas fazer o quê? –Não sei o que foi mais irritante, ele ser tão narcisista ou a naturalidade com que ele dizia isso... –E eu também não gosto muito de você, porque me lembra eu mesmo quando comecei, embora eu até te ache meio simpático. –Quanta vontade de esganá-lo... –Mas sabe, eu quero que você trabalhe comigo.
...
Ok. Isso sim foi uma surpresa.
-Como? –Perguntei, talvez eu tivesse ouvido errado. Então aquele arrogante, narcisista, chato, irritante, metido queria trabalhar comigo? E pensar que eu falava tão mal dele... É, realmente, talvez Henry estivesse certo afinal.
-Trabalhar comigo. Você é um desastre, não posso soltar você por aí assim, maaaas se estender seu treinamento por mais uns meses vão me achar um inútil que não consegue educar alguém. Então é a única saída, além disso eu estava acostumado a trabalhar em dupla antes. Aceita? –Perguntou com calma.
Eu ainda mato esse cara...
No fim aceitei trabalhar com ele. Por quê? Porque eu vou ter o maior prazer em transformar a vida dele em um completo inferno. Além disso, segundo as leis da Gears, se alguém resolve sair deve ser morto... É, em que bela situação eu me meti...
Minhas armas foram entregues naquela noite. Um arco e um alforje com duas dúzias de flechas, um punhal com a empunhadura de couro negro e uma lâmina bem afiada com cerca de quinze centímetros e uma espada com a empunhadura e a bainha negras. Não foi Zay quem me entregou as armas, ele pediu que Henry fizesse isso e foi para a cidade, típico dele...
Passei as semanas seguintes treinando e fazendo alguns serviços na sede, até que Zay encontrasse alguma missão boa. E sim, a missão que ele encontrou foi muito boa.


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MensagemAssunto: Chegando em Vena   Seg Set 03, 2012 3:19 pm

CHEGANDO EM VENA


Vena fica a cinco horas da cidade em que eu cresci. Sinceramente, ao meu ver todas as cidades são iguais, todas tem diversas coisas em comum. Mas... Sempre tem um “mas”. Vena tinha algo que minha antiga cidade não tinha, duas coisas aliás: Uma biblioteca enorme visitada pela nobreza, clero e burguesia e, o mais importante, era a segunda maior concentração de nobres do país. Por algum motivo, duques, condes, viscondes, barões... todos esses têm alguma mansão nessa cidade. Motivo? Nem idéia. Provavelmente pela segurança, guardas têm carta branca para fazerem o que quiserem com qualquer um que julguem suspeito. Além disso, é uma bela cidade, diversos monumentos, pomares, parques... sem falar de um dos maiores mercados que já vi, comerciantes de todo o mundo oferecem seus produtos em Vena.
Voltando ao foco, depois de cinco longas horas à cavalo chegamos à cidade. A Gears tem abrigos em diversas cidades, então não tínhamos que procurar um lugar para ficar.
-Finalmente. –Falei desabando sobre a primeira cadeira que encontrei ao entrar na casa. –Não tinha uma cidade mais distante, não?
-Tinha, mas era algo difícil demais para um principiante.
Zay parecia tão cansado quanto eu, mas não queria admitir isso. A casa era modesta, mas para os padrões gerais do país podia ser considerada muito boa. Três quartos, uma cozinha, uma sala pequena e um banheiro. Fui para a cozinha logo depois de guardar minhas coisas, tinha levado apenas minhas armas e algumas mudas de roupas. Encontrei meu colega tentando acender um fogão à lenha. Guardei as provisões que tínhamos levado em um armário na parede oposta, afinal se eu não fizesse nada seria chamado de inútil e teria que aguentar as reclamações da madame.
-Hey, nem vai perguntar o que temos para fazer nessa cidade?
-Uma hora ou outra vai ter que me falar. –Dei de ombros.
Ele foi até seu quarto e voltou trazendo um embrulho de couro. Dentro do embrulho tinha apenas uma coisa, um pedaço de pergaminho cuja frente estava escrita e o verso desenhado.
Zay pigarreou e começou a ler.
-“Há três anos, um mercador vendeu ao duque de Vena um estranho objeto feito de prata. Não se sabe sua origem, nem seu significado. Porém, meus estudos apontam que tenha sido saqueado por bárbaros há seis séculos. A forma está esboçada no verso. Recuperem-no.” –Leu calmamente.
Virou o pergaminho e em seguida me entregou.
-Parece uma engrenagem... Ou umas três, bem presas umas às outras. –Falei olhando o desenho. –O que isso faz?
-Sou adivinho agora? –Zay arqueou a sobrancelha esquerda.
Ótimo... começou.
-Calma, calma... Sem estresse. –Falei erguendo as mãos em sinal de paz. Sério, depois de cinco horas à cavalo o que eu menos quero fazer é discutir. –Só perguntei. E então, o que fazemos agora?
Ele passou a mão pelo cabelo.
-Bom... Nobres não conseguem ficar quietos, a cada duas semanas eles têm que dar uma festa pra parecer que suas vidas inúteis não são tão inúteis, então... –Cruzou os braços.
-Então?
-Bom, vou tentar entrar em contato com alguém desse tipo, conseguir convites para o próximo evento. Enquanto isso você faz umas pesquisas para mim.
Quem diria, ele decidiu ficar com a parte complicada... Tô até emocionado.
-Ou seja: você pesquisa sobre soníferos e venenos na biblioteca e na floresta, enquanto eu bajulo Lady Clarissa, uma conhecida minha que está passando uma temporada aqui, até conseguir ter notícias sobre o próximo grande evento. –Ele disse enquanto ia para o quarto.
...
Eu realmente pensei que ele ficaria com a parte complicada do trabalho?

Quando acordei Zay já tinha saído. Fui até a cozinha e comi um pouco, depois saí também. Não sabia se me deixariam entrar na biblioteca, já que Zay tinha comentado algo sobre ser usada apenas pela nobreza e companhia.
Atravessei as ruas com passos apressados. A biblioteca ficava ao lado de uma das praças, contornada por diversos áceres vermelhos e bancos de madeira clara. Logo que cheguei me deparei com algo estranho. Bem estranho, aliás.
Uma figura andava quase em zigue-zague, equilibrando uma pilha de livros e tentando subir a escada da biblioteca.
Difícil decidir entre ajudar ou rir.
É sério, quase dava pena. A pilha de livros impedia a visão da pessoa, sem falar que a pobre criatura estava quase tropeçando na bainha da própria saia. No fim, a pena foi mais forte e decidi ajudar. Péssima ideia.
-Desculpa! –A criatura disse, depois de derrubar metade dos livros em cima de mim. Viu o que dá querer ajudar as pessoas?
Realmente era uma figura estranha. Ajuntava os livros com pressa, parecia extremamente irritada e usava roupas bem diferentes.
-Tudo bem, eu consigo levá-los sozinha. –Falou quando tentei ajudar a recolher os livros.
-Claro... É, deu para ver que sim.
Parou e me olhou com raiva.
-Não tem algo mais importante para fazer, não? –Perguntou, erguendo a pilha de livros e quase perdendo o equilíbrio.
Por que todas as pessoas que eu conheço insistem em me tratar mal?!
-Tenho, e mesmo assim continuo perdendo meu tempo com você. –Peguei metade dos livros. –Podia mostrar um pouco mais de gratidão!
-Não pedi sua ajuda. –Respondeu fazendo birra.
Acompanhei-a até o fundo da biblioteca, coloquei os livros sobre uma mesa e, como sabia que ela não ia me agradecer, comecei a andar.
-Hey... –Ouvi a garota me chamando.
-Sim?
-Sou Eleanor, e obrigada. –Falou levantando e seguindo até uma das prateleiras. –Se precisar de ajuda é só chamar, conheço bem esse lugar.
-Lewis. –Respondi. –Sabe onde tem livros sobre venenos?
-Pretende matar alguém? Porque se for isso, acabou de se incriminar... Mas, mesmo assim, sei onde pode conseguir alguns tipos. –Sorriu, embora continuasse olhando apenas para os livros.
Matar alguém? Talvez... Quem sabe eu teste alguns tipos com o Zay qualquer hora dessas, seria só misturar na comida dele... Ah, que maravilha seria!
-Estou estudando. –Menti. –Pesquisando os efeitos que eles têm. Venenos, soníferos... se puder me ajudar com qualquer um deles...
-Quem sabe. –Disse, pegando quatro volumes nas prateleiras e andando em minha direção. –Talvez isso ajude, embora eu ache que o estudo prático é mais interessante.

Levei os livros para casa. O que eu encontro quando chego?
-É mesmo um inútil... –Falei balançando a cabeça e olhando-o com a maior repulsa que consegui.
-Fica quieto, isso não foi nem um pouco agradável, se quer saber. –O Don Juan respondeu desanimado, puxando a gola da blusa para cima para tentar cobrir as marcas no pescoço.
-Não é o que parece.
-Lady Clarissa tem 50 anos. –Ele falou no tom mais baixo que conseguiu, ficando pálido. –Sério, é bom esses convites terem valido o sacrifício. –Continuou, pondo dois envelopes lacrados sobre a mesa. –E você? Espero que não tenha ficado vadiando pelas ruas...
Deixei os livros caírem sobre a mesa.
-Muito bem. –Zay respondeu, levantando. –Vou tomar um banho.
Realmente, nunca tinha visto ele tão desanimado. Bom, problema dele, eu tinha quatro livros para ler então seria perda de tempo ficar preocupado com Zay.
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Sam

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MensagemAssunto: Conversas na biblioteca   Seg Set 24, 2012 3:24 pm

CONVERSAS NA BIBLIOTECA

Pergunto-me onde eu estava com a droga da cabeça quando resolvi apelar para livros. Primeiro problema: eu teria que virar a noite lendo. Tecnicamente não era um problema, já que eu era acostumado a virar as noites na taverna esperando por um bom alvo... O verdadeiro problema era: letras e eu não combinamos.
Deixem que eu explique uma coisa. Leitura é um hábito extremamente raro. Por quê? Porque esse exercício é ensinado, aprendido e praticado apenas pela nobreza e clero. Além disso, mulheres também não costumam ser ensinadas, o que diminui ainda mais o grupo.
Tsc... Certo, Zay chegou a me perguntar se eu sabia, uma vez durante meu treinamento. Respondi que sim! Tenho cara de quem ia dizer que não e dar motivo para o inútil me encher a paciência?! Ah, vai sonhando...
Não é que eu não saiba, aliás, até sei. Quando era menor, fui criado por uma mulher que viveu boa parte da vida na corte. Como foi parar na sarjeta, daí eu já não sei, acho que era filha de comerciantes e a família faliu, algo assim. O que importa é que minha “mãe” sabia ler, conseguiu convencer seus pais a lhe deixar aprender quando era pequena, e decidiu me ensinar. Enfim, não é que eu não saiba ler, até aprendi, mas esses malditos simbolozinhos me deixam louco!
O que acontece é que fechei os livros, contendo a vontade extrema de jogá-los contra a parede, e fui dormir.
Na manhã seguinte, acordei antes de Zay para poder sair sem ter que dar explicações e voltei à biblioteca.
Momento déjà vu... Uma garota atrapalhada tentava subir a escada da entrada da biblioteca, carregando uma pilha de livros que lhe tampavam a visão.
Por que será que tenho uma certa vontade de empurrá-la escada à baixo...? Sei lá, talvez algo me diga que é uma mal-agradecida irritante...
-Precisa de ajuda? –Subi os degraus correndo para alcançá-la.
Eleanor parou e virou o corpo, para poder me ver.
-O que é isso? Perseguição? –Indagou surpresa. –Gostou dos livros? –Perguntou enquanto continuava o percurso, tentando equilibrar os livros.
-Não li.
Parou subitamente e me encarou como se eu tivesse cometido o pior crime da história.
-Para que retirou os livros se nem se dignou a lê-los? –Perguntou devagar, em um tom de quem se dirige ao verme mais desprezível.
Saibam de uma coisa: mulheres podem ser aterrorizantes às vezes.
-Problemas técnicos. –Falei pondo meus livros sobre a mesa.
-Como quais? –A pilha de livros que ela carregava foi posta sobre a mesa.
Há, vai achando que vou dizer...
-Achei que um estudo prático seria mais útil. –Menti.
Ela arqueou uma das sobrancelhas e sorriu com um sorriso quase tão irritante quanto o do inútil que trabalha comigo.
-Não conseguiu ler porque não sabe. –Cruzou os braços e apoiou-se na mesa.
Mas que raios de bruxaria é essa...?
-É, pela sua cara eu acertei. –Sorriu, triunfante.
Eleanor pegou alguns livros e começou a guardá-los nas prateleiras.
-Sabe, dei dois livros errados, devia ter notado pelos títulos.
-E por que inferno fez isso? –Perguntei seguindo-a.
-Não sei. –Parou de andar e de falar. –Devo ter trocado com algum dos meus acidentalmente. Às vezes faço esse tipo de coisa, apenas ignore.
-Você é estranha, sério. –Fato.
-Se eu ganhasse uma moeda de prata a cada vez que me dizem isso... –Seu rosto assumiu uma expressão de ódio. Outra vez sinto medo dessa desequilibrada. –Mas tudo bem, não parece dizer isso por maldade.
-Não é maldade, se chama: verdade. –Dei ênfase na última palavra. –Admita, você não é um tipo comum...
-Por quê? Por ser mulher e mesmo assim me interessar por algo que julgo útil, diferente das vagabundas da corte que se importam apenas em tirar a saia para o primeiro que vêm? –Perguntou cruzando os braços e se escorando em uma das grandes prateleiras. Sorria de forma irônica e irritada.
-Também... Se bem que eu não sabia que as donzelas da corte eram assim, mas se você diz... Aliás, esse seu comportamento é a prova de que é estranha, uma dama não deveria se comportar assim.
-De donzelas elas não tem nada... –Refletiu em voz alta. –Mas se quer saber, em público simplesmente calo a boca e abaixo a cabeça. Provavelmente é isso que você julga um “comportamento normal”, não é? –Voltou a arrumar os livros.
-Sim, acho que sim... Mas não consigo imaginar você dessa forma.
Ela sorriu.
-Que bom. Sabe, se estiver no próximo evento de Lady Clarissa, me procure. –Eleanor mal acabara de guardar seus livros e já começava a pegar outros.
Parei ao lado dela na estante e, por um momento, resolvi dar uma de Zay.
-Gostou tanto assim da minha companhia?
Ela me olhou com aquele olhar ameaçador outra vez. Pegou mais um livros e me empurrou quando passou. Parou alguns passos à frente e se virou.
-Pensei que seria bom ter alguém com um pouco de bom senso como companhia, apenas isso. Mas sabe... –A voz soava um pouco deprimida mas, nesse ponto, voltou ao
tom normal e a garota sorriu.. -...se falar algo assim novamente, ter o fígado arrancado vai ser o que menos vai doer. -Em seguida, saiu da biblioteca.
...
Tsc, garota estranha...
...
...
Graças a essa palhaçada ridícula nem lembrei que, talvez, ela possa me dizer algo sobre venenos.
E lá fui eu outra vez, enfrentar a fera...
-Eleanor. –Chamei quando a encontrei, cruzando o parque.
-Quando vai me deixar em paz? –Ela pôs a nova pilha de livros, dessa vez não tão grande, sobre um dos bancos.
-Nossa, com todo esse carisma é melhor tomar cuidado, eu posso me apaixonar... –Falei chegando mais perto.
-Cale a boca e diga o que quer. –Ela cruzou os braços.
Quanta simpatia...
-Preciso de informações sobre venenos...
Ela sorriu outra vez. Nunca sei o que esperar quando ela sorri...
-Talvez, um dia talvez. –Falou, ameaçando ir embora.
-Ãh? “Um dia” nada! –Puxei Eleanor pelo braço quando ela ameaçou ir embora. –É meio urgente. –Falei soltando o braço da garota. É, agora sim que ela não me diz mais nada...
-Minhas informações, minha regras... Nos vemos por aí. –Falou pegando os livros e indo embora.
Pensei em insistir, mas estava começando a perceber que a garota era teimosa. Ótimo... Consegui motivos para o Zay se indignar e, dessa vez, com razão. O jeito é falar com ele... Por sorte acho que isso não é muito urgente, já que ainda nem visitamos o lugar.
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MensagemAssunto: Clarissa   Qua Out 31, 2012 12:08 pm

CLARISSA

Zay não estava em casa e a porta estava trancada.
...
...
Custava ter esperado eu chegar?! Não, não custava nada!
Sentei em um dos três degraus que ficava em frente a porta, cruzei os braços e fiquei esperando. Boa hora para fazer um balanço da situação... Vejamos...
Entrei para uma organização desconhecida e tenho que roubar algo que nem sei exatamente o que é. Trabalho com um inútil que teve a capacidade de me trancar fora de casa. Conheci uma garota esquisita. Tenho que aprender sobre venenos, soníferos e nem ao menos sei como o Zay pretende usá-los.
Tsc, que confusão...
Levantei e resolvi andar um pouco, digamos que a ideia de ficar sentado sem fazer nada até o Zay chegar não parecia muito animadora. Fui até a feira, em uma das praças centrais.
Quer ir num lugar movimentado? Vá à feira.
Sério, pense em uma aglomeração de pessoas. Todas lutando para conseguir os melhores produtos pelos menores preços. Isso sem falar nas crianças correndo de um lado para o outro! Pode ter certeza de que um bando de pirralhos correndo no meio da multidão não ajuda muito.
Tentei passar por todo aquele povo. Quanto esforço e autocontrole para não empurrar uns... Bem, nada mais do que uma feira como qualquer outra, com as pessoas andando de um lado para o outro e os mercadores tentando cobrar preços absurdos pelos produtos. Mas mesmo assim, nada de muito interessante por lá, peguei uma maçã enquanto um dos vendedores estava distraído e continuei andando.
E o que eu vejo quando saio da feira?
O Don Juan em ação... Ah, mas isso vai ser bom...
-Lady Clarissa, sua beleza é tão ofuscante que o sol ficará com ciúmes... –Zay disse logo que saiu de uma carruagem, enquanto ajudava uma mulher a sair também.
Bem, então aquela era a famosa Lady Clarissa! Olha, não vou mentir, até que está bem conservada... Se não fossem as linhas de expressão e o cabelo todo branco, que ela prendia em um coque cheio de enfeites, não daria para dizer que ela é muito velha. Se bem que eu não posso falar muito sobre ter cabelos brancos...
-Pare com isso Zay... –Ela disse rindo enquanto desamarrotava a saia.
-Desculpe, não se repetirá, minha senhora. –Ele respondeu sorrindo e estendendo-lhe o braço. Cena bizarra essa...
-Não seja idiota, se parar de me bajular vai perder sua única função.
Incrível como o jeitinho meigo e encantador me lembra alguém...
O “casal” seguiu de braços dados, indo até uma pequena praça. Reparei que existem várias praças nessa cidade, provavelmente os lordes e as ladys gastam seu tempo livre passeando por elas ao invés de fazerem algo útil.
Mordi a maçã e segui a dupla. Sim, eu queria motivos para rir da cara do Zay quando chegássemos em casa.
Sentaram-se em um banco em frente a um pequeno lago.
-Sabe que não estou bajulando você... –Me recuso a descrever a cara de idiota que o Zay fazia. –Só estou falando a verdade.
-Sou velha, mas ainda sou lúcida o bastante para reconhecer uma mentira, bajulador barato. –Clarissa respondeu com um sorrisinho sarcástico e, em seguida, riu.
-Acredite no que quiser acreditar... –Zay olhava para o lago. –Vou continuar elogiando você queira ou não, não vou deixar de exaltar a mais magnífica mulher dessa cidade só porque ela se recusa a admitir que o que eu digo é uma verdade.
...
É, pela cara que ela fez só digo uma coisa: o cara é bom.
Clarissa ficou em silêncio e meu amigo pegou a mão dela.
-Só queria deixar claro o quanto você é incrível para mim mas, se isso a irrita ou chateia, me diga e eu paro.
-Já disse, você seria muito inútil se parasse... –Clarissa riu e apoiou a cabeça no ombro dele.
Correção vovó: ele já é um inútil. Mas deixemos isso de lado...
-Aliás, pediu dois convites para o próximo baile. O primeiro é para você, isso é óbvio, mas estou curiosa para saber a quem se destina o segundo.
-Oh, ninguém muito importante...
Obrigada pela consideração, colega.
-Aliás, nem sei qual é o motivo que me fez ter a ideia de deixar que ele me acompanhasse. É apenas um amigo meu.
-É bonito como você? –Ela piscou.
-Pode ter certeza de que não. –Quem falando! –Não tem muito sentido ficarmos falando sobre ele, é apenas um primo que ficou órfão recentemente e do qual resolvi tornar-me tutor. –Dessa nem eu sabia...
-Ora, se é seu primo então não deve ser de se jogar fora... –Quando ela disse isso Zay ameaçou se levantar. –Calma, calma! Sabe que só estou brincando, não seja tão infantil.
-Conheço você...
-Não seja bobo. Mas mesmo assim, quero conhecê-lo o mais breve possível.
-Então por que não agora? –Zay falou virando-se para onde eu estava. –Lewis?
Quando ele me viu?
Fui até eles.
-Seu primo? Parece mais velho que você. –Clarissa não disfarçava, olhava fixamente para meu cabelo.
-Nossa família costuma ter cabelos muito claros por parte de mãe. –Tentei contornar. –É uma honra conhecê-la.
-Sim, já a conheceu, agora nos deixe à sós, por gentileza. –Meu novo primo me expulsou gentilmente. –Aqui está a chave, fiquei com ela ao sair. –Pelo menos me entregou a chave, seria uma droga ficar trancado do lado de fora esperando ele chegar.
-Não seja rude com o rapaz, Zay. –A vovó bateu com o leque no ombro dele.
-Está tudo bem, senhora. Tenho que ir indo, mas nos veremos outra vez em breve. –Me despedi e fui embora, já estava se tornando incômodo aguentar meu colega me mutilando com os olhos.
Passei pela feira outra vez quando voltava para casa. Achei ter ouvido a voz de Eleanor ao longe, brigando com um dos mercadores pelo preço abusivo de algum produto, mas ignorei, não estava com vontade de vê-la outra vez na mesma manhã. Além disso, esbarrei em um dos comerciantes enquanto andava e, acidentalmente, acabei ficando com um pequeno saco cheio de moedas. Seria terrível desperdiçar elas deixando-as sem uso em casa, então comprei algumas coisas para o almoço.
Zay chegou no início da tarde. E eu tive que aguentar uns bons quinze minutos de “o que você pensa que estava fazendo?”, “eu não interfiro no seu trabalho, não se intrometa no meu” e blábláblá. Ao fim do discurso acrescentou algo como “se isso voltar a se repetir, você vai amaldiçoar o dia em que me conheceu” ou algo assim, foi para o quarto e bateu a porta. É tão bom trabalhar com pessoas calmas e serenas como ele...
Pensei em recomeçar a busca por soníferos, venenos e similares na manhã seguinte, mas não pude. Meu colega gastou minha manhã e boa parte da tarde explicando o que deveríamos fazer quando fossemos a tal festinha da Vovó Clarissa. Alegou que não queria passar vergonha... Ah, claro! Mísera desculpa esfarrapada para me trancar em casa o dia todo por birra, só por eu ter seguido-o! Afinal, qual poderia ser a dificuldade de conversar com algumas pessoas e dar uma olhada no local e na segurança?


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Sinto que a qualidade da história caiu bounce
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